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id da página: 878 A Arte da Prece — as fontes da antologia

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Arte da Prece — as fontes da antologia

  • O século XIX marcou um florescimento singular da vida espiritual na Igreja Ortodoxa Russa, e é sobre dois de seus maiores mestres — Teofano, o Recluso (Zatvornik), e Inácio Briantchaninov — que o monge Chariton baseou principalmente sua coletânea A Arte da Oração, sendo a maior parte das passagens extraída das obras do primeiro.

    • Ambos os autores sintetizam o espírito ascético e contemplativo da ortodoxia russa moderna, unindo fidelidade à tradição patrística e profunda experiência interior.
  • Teofano, o Recluso (1815–1894), nascido George Govorov em Chernavsk, filho de sacerdote, recebeu formação clerical desde cedo e destacou-se por sua inclinação à solidão e à suavidade de caráter.

    • Estudou na Academia Teológica de Kiev, onde teve contato com o monaquismo e com o starets Parthênios do Mosteiro das Grutas de Kiev.
    • Após a graduação, fez votos monásticos, foi ordenado sacerdote e se destacou como professor e erudito, chegando a integrar a Missão Espiritual Russa na Palestina, onde aprendeu grego e se aprofundou nos Padres da Igreja.
  • De volta à Rússia, foi reitor da Academia de São Petersburgo e posteriormente nomeado bispo de Tambov e, depois, de Vladimir, mas sua vocação contemplativa o levou, em 1866, a renunciar e retirar-se para o mosteiro de Vyshen, onde viveu enclausurado até a morte.

    • Após 1872, manteve-se em reclusão total, celebrando a liturgia sozinho, em silêncio, “concelebrando com os anjos”, segundo um biógrafo.
    • Dividia seus dias entre a oração e a escrita, respondendo a vasta correspondência espiritual, em sua maioria de mulheres, e realizando pequenos trabalhos manuais e pintura de ícones.
    • Sua vida era de extrema simplicidade e ascetismo, com alimentação frugal e ambiente austero, sem iconóstase em sua capela.
  • Profundamente erudito, Teofano levou consigo para Vyshen uma biblioteca notável, centrada na Patrologia de Migne e em obras dos Padres Gregos, mas também contendo filosofia ocidental moderna.

    • Apesar de poucas citações diretas, sua obra é totalmente enraizada na tradição patrística, da qual foi fiel intérprete e renovador.
    • Deixou edições russas de textos espirituais gregos, comentários sobre as epístolas paulinas e uma volumosa correspondência, da qual provém grande parte das citações de Chariton.
    • Sua linguagem é direta, prática e pastoral, unindo erudição e simplicidade, o que o torna figura indispensável à compreensão da ortodoxia russa.
  • Inácio Briantchaninov (1807–1867), o segundo grande nome da coletânea, compartilhou com Teofano uma trajetória de bispo que renuncia à administração e se retira à solidão para dedicar-se à escrita e à direção espiritual.

    • Proveniente da nobreza, nascido Dmitri, estudou na Escola Militar de São Petersburgo, onde se destacou como aluno, sendo notado pelo Grão-Duque Nicolau Pavlovitch (futuro Nicolau I).
    • Apesar de promissor na carreira militar, sentia um profundo chamado ao monaquismo, que só pôde seguir após uma grave enfermidade. Tornou-se noviço e depois sacerdote monástico em um pequeno mosteiro próximo a Vologda.
  • O imperador, ao saber de sua vocação, ordenou seu retorno à capital e, considerando que um bom oficial seria também um bom monge, nomeou-o arquimandrita do Mosteiro de São Sérgio de Petersburgo, encarregando-o de transformá-lo em modelo de vida monástica.

    • Permaneceu ali por 24 anos e, em 1857, foi sagrado bispo de Stavropol, cargo que deixou em 1861 para viver seus últimos anos em reclusão no mosteiro de Nicolo-Babaevski.
  • Inácio, como Teofano, foi escritor prolífico, e suas obras completas abrangem cinco volumes, dedicados principalmente ao público monástico.

    • Escreveu sobre a Oração de Jesus e outros temas ascéticos, sempre enraizado na tradição patrística.
    • Ambos os autores não pretendiam originalidade, mas sim fidelidade criadora: reinterpretavam a herança dos Padres através da experiência viva, o que confere autoridade e autenticidade ao seu ensinamento.
  • Além desses dois mestres, Chariton cita ocasionalmente outros autores russos dos séculos XIX e XX — como os bispos Justino e Nikon, e São João de Kronstadt — bem como textos gregos e siríacos clássicos, entre eles São Marcos, São Macário, São Barsanúfio e São João, São Simeão, São Gregório do Sinai, São Gregório Palamas, São Efrém e São Isaac, além de São João Cassiano.

  • A maioria desses textos chegou a Chariton por meio da Philokalia (Amor à Beleza), compilada por São Nicodemos do Monte Atos em 1782, traduzida ao eslavo por Paíssio Velitchkovski em 1792 e, em versão ampliada, editada em russo por Teofano, o Recluso, entre 1876 e 1890, sob o título Dobrotolubiye.

    • Apesar de sua reverência por essa coletânea, Chariton optou por citar menos dela, preferindo as obras russas de Teofano e Inácio, mais acessíveis e claras para os cristãos do século XX.
    • Como observa o próprio Inácio, “os escritos dos Padres russos são mais acessíveis a nós do que os dos gregos, pela clareza e simplicidade de sua exposição e por estarem mais próximos de nós no tempo.”